Saúde // pacientes terminais
Cuidados paliativos: o milagre de viver bem os últimos dias
Publicado em 21.07.2011, às 09h46
Vanessa Silva Do NE10
Filosofia do cuidar tem como objetivo garantir qualidade de vida aos pacientes terminais
Foto: Reprodução
A notícia que chega pelo médico soa como uma sentença. A partir daí, desencadeia-se uma corrida incessante contra a morte, na espera de que, de uma hora pra outra, a medicina surpreenda com uma nova descoberta que represente cura ou que algum milagre aconteça. Por mais que o ditado popular reze que a única certeza da vida é a morte, é difícil confortar-se diante da terminalidade. Muitos pensam que não há mais nada a ser feito. A humanização da medicina tradicional, porém, mostra o contrário.
Há seis meses, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - Imip, inaugurou a Casa de Cuidados Paliativos Professor Saulo Suassuna, no Recife. Única no Nordeste, a casinha branca, situada no primeiro andar do Hospital Pedro II, no bairro dos Coelhos, área central da cidade, acolhe pacientes terminais para tratá-los sob uma outra perspectiva: a que vê o doente em toda a sua completude, e não apenas da enfermidade.
Foto: Assessoria do Imip/ Divulgação

Casinha branca, no primeiro andar do hospital Pedro II, acolhe pacientes terminais do setor de Oncologia do Imip
"Muitas vezes, nós (profissionais de saúde) enxergamos apenas a doença e ficamos única e exclusivamente focados em curar. Não percebemos, muitas vezes, que o paciente está sentindo dores pelo uso de determinada medicação ou mesmo que ele está aflito por deixar questões mal resolvidas na vida pessoal. Então claro que a busca pela cura é importante, mas o cuidado durante esse processo é muito mais", afirma Jurema Teles, coordenadora do setor de Oncologia Adulto do Imip.
A especialidade dos cuidados paliativos versa sobre uma abordagem que visa à melhoria da qualidade de vida do paciente terminal através da prevenção e alívio do sofrimento. "Nós nunca vamos saber o dia nem a hora que iremos morrer. Então é preciso cuidar para que os últimos momentos aqui na terra sejam vividos com qualidade", defende a geriatra Mirella Rebêlo, que coordena a Casa dos Cuidados Paliativos do Imip.
Nem todos os pacientes permanecem internos na casa. O grupo de médicos, assistentes sociais e enfermeiros, porém, acompanha toda a trajetória, mesmo após a alta. "Quando vemos que a família tem condições de manter os cuidados paliativos em casa, liberamos o paciente. Muitos vêm aqui só quando precisam de um medicamento pra dor ou uma conversa. Em todo caso, nós ficamos acompanhando tudo e monitorando daqui", conta Mirella.
Por enquanto, a casa dos cuidados paliativos recebe apenas pacientes do setor de Oncologia. Com oito leitos, a ideia é expandir para 14 assim que possível. "O ideal é que esse serviço seja ofertado desde o início do tratamento. Temos consciência de que outras áreas também deveriam ser contempladas e, por isso, estamos trabalhando para que o serviço possa crescer, mas o tratamento humanizado já faz parte do corpo de valores da instituição", diz Jurema.
CAIXA DOS DESEJOS - Um dos trabalhos mais interessantes desenvolvidos pela Casa dos Cuidados Paliativos é a Caixa dos Desejos. Em um pequeno receptáculo, os pacientes depositam seus pedidos, realizados na medida do possível com a ajuda da equipe multidisciplinar do hospital. A geriatra Mirella Rabêlo, responsável pela casa, conta que os anseios vão desde uma reconciliação até mesmo degustar a comida favorita.
"Percebemos que muitos não querem partir sem deixar seus assuntos resolvidos; então, esse é um dos mais frequentes pedidos. Outros, simples aos nossos olhos - como tomar uma Coca-Cola ou comer um prato de costelinha -, têm para eles um imenso significado", conta Mirella.
Foto: Vanessa Silva/ NE10
Maior desejo do pescador Severino José é ir pra casa
Há mais de um mês na casinha, o grande desejo do pescador Severino José, de 49 anos, é ir para a própria casa. "Quero terminar meus dias no meu cantinho", diz ele. "Não é que aqui seja ruim, muito pelo contrário, melhor que aqui só no céu", logo tratou de frisar. Acostumado à rotina de trabalho árduo que levava no município de Ipojuca, no litoral sul, onde tirava o sustento da pesca do marisco, caranguejo e siri, Severino tem sentido dificuldade em ficar o dia inteiro em cima de uma cama. Vítima de um tumor pélvico, perdeu a perna direita e ficou com uma grande ferida na virilha. A falta de informação e as condições financeiras o levaram a ficar muito tempo sem procurar atendimento.
A equipe, porém, está encontrando dificuldade em tornar realidade o desejo de Severino. Isso porque no hospital, o pescador tem acompanhamento diário e, apesar da extensão da ferida ter aumentado, a dor e o forte odor característicos desse tipo de tumor estão controlados. "Precisamos ter certeza que em casa ele terá o mesmo cuidado que está tendo aqui antes de realizarmos o desejo dele. Estamos entrando em contato com hospitais da cidade, para que ele possa fazer os curativos lá e aí, sim, terá alta como tanto deseja", contou Mirella.
A caixa dos desejos leva o nome de Renato Ferreira, numa homenagem ao paciente que protagonizou, em outubro de 2010, uma história considerada pela equipe profissional como das mais emocionantes da instituição. Aos 25 anos, o rapaz realizou, durante o período de internamento para tratamento de câncer, o sonho de casar com a namorada Daniela de Assis. Renato faleceu na enfermaria de Oncologia do Imip 15 dias após a cerimônia.
Para toda a equipe, essa história ilustra o real significado dos cuidados paliativos. "Às vezes, o milagre é você poder viver melhor cada dia que tiver", conclui Mirella.
Há seis meses, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - Imip, inaugurou a Casa de Cuidados Paliativos Professor Saulo Suassuna, no Recife. Única no Nordeste, a casinha branca, situada no primeiro andar do Hospital Pedro II, no bairro dos Coelhos, área central da cidade, acolhe pacientes terminais para tratá-los sob uma outra perspectiva: a que vê o doente em toda a sua completude, e não apenas da enfermidade.
Foto: Assessoria do Imip/ Divulgação

Casinha branca, no primeiro andar do hospital Pedro II, acolhe pacientes terminais do setor de Oncologia do Imip
"Muitas vezes, nós (profissionais de saúde) enxergamos apenas a doença e ficamos única e exclusivamente focados em curar. Não percebemos, muitas vezes, que o paciente está sentindo dores pelo uso de determinada medicação ou mesmo que ele está aflito por deixar questões mal resolvidas na vida pessoal. Então claro que a busca pela cura é importante, mas o cuidado durante esse processo é muito mais", afirma Jurema Teles, coordenadora do setor de Oncologia Adulto do Imip.
A especialidade dos cuidados paliativos versa sobre uma abordagem que visa à melhoria da qualidade de vida do paciente terminal através da prevenção e alívio do sofrimento. "Nós nunca vamos saber o dia nem a hora que iremos morrer. Então é preciso cuidar para que os últimos momentos aqui na terra sejam vividos com qualidade", defende a geriatra Mirella Rebêlo, que coordena a Casa dos Cuidados Paliativos do Imip.
Nem todos os pacientes permanecem internos na casa. O grupo de médicos, assistentes sociais e enfermeiros, porém, acompanha toda a trajetória, mesmo após a alta. "Quando vemos que a família tem condições de manter os cuidados paliativos em casa, liberamos o paciente. Muitos vêm aqui só quando precisam de um medicamento pra dor ou uma conversa. Em todo caso, nós ficamos acompanhando tudo e monitorando daqui", conta Mirella.
Por enquanto, a casa dos cuidados paliativos recebe apenas pacientes do setor de Oncologia. Com oito leitos, a ideia é expandir para 14 assim que possível. "O ideal é que esse serviço seja ofertado desde o início do tratamento. Temos consciência de que outras áreas também deveriam ser contempladas e, por isso, estamos trabalhando para que o serviço possa crescer, mas o tratamento humanizado já faz parte do corpo de valores da instituição", diz Jurema.
CAIXA DOS DESEJOS - Um dos trabalhos mais interessantes desenvolvidos pela Casa dos Cuidados Paliativos é a Caixa dos Desejos. Em um pequeno receptáculo, os pacientes depositam seus pedidos, realizados na medida do possível com a ajuda da equipe multidisciplinar do hospital. A geriatra Mirella Rabêlo, responsável pela casa, conta que os anseios vão desde uma reconciliação até mesmo degustar a comida favorita.
"Percebemos que muitos não querem partir sem deixar seus assuntos resolvidos; então, esse é um dos mais frequentes pedidos. Outros, simples aos nossos olhos - como tomar uma Coca-Cola ou comer um prato de costelinha -, têm para eles um imenso significado", conta Mirella.
Foto: Vanessa Silva/ NE10

Maior desejo do pescador Severino José é ir pra casa
Há mais de um mês na casinha, o grande desejo do pescador Severino José, de 49 anos, é ir para a própria casa. "Quero terminar meus dias no meu cantinho", diz ele. "Não é que aqui seja ruim, muito pelo contrário, melhor que aqui só no céu", logo tratou de frisar. Acostumado à rotina de trabalho árduo que levava no município de Ipojuca, no litoral sul, onde tirava o sustento da pesca do marisco, caranguejo e siri, Severino tem sentido dificuldade em ficar o dia inteiro em cima de uma cama. Vítima de um tumor pélvico, perdeu a perna direita e ficou com uma grande ferida na virilha. A falta de informação e as condições financeiras o levaram a ficar muito tempo sem procurar atendimento.
A equipe, porém, está encontrando dificuldade em tornar realidade o desejo de Severino. Isso porque no hospital, o pescador tem acompanhamento diário e, apesar da extensão da ferida ter aumentado, a dor e o forte odor característicos desse tipo de tumor estão controlados. "Precisamos ter certeza que em casa ele terá o mesmo cuidado que está tendo aqui antes de realizarmos o desejo dele. Estamos entrando em contato com hospitais da cidade, para que ele possa fazer os curativos lá e aí, sim, terá alta como tanto deseja", contou Mirella.
A caixa dos desejos leva o nome de Renato Ferreira, numa homenagem ao paciente que protagonizou, em outubro de 2010, uma história considerada pela equipe profissional como das mais emocionantes da instituição. Aos 25 anos, o rapaz realizou, durante o período de internamento para tratamento de câncer, o sonho de casar com a namorada Daniela de Assis. Renato faleceu na enfermaria de Oncologia do Imip 15 dias após a cerimônia.
Para toda a equipe, essa história ilustra o real significado dos cuidados paliativos. "Às vezes, o milagre é você poder viver melhor cada dia que tiver", conclui Mirella.
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