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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Cuidados paliativos: o milagre de viver bem os últimos dias

Saúde // pacientes terminais

Cuidados paliativos: o milagre de viver bem os últimos dias

Publicado em 21.07.2011, às 09h46

Vanessa Silva Do NE10
Filosofia do cuidar tem como objetivo garantir qualidade de vida aos pacientes terminais
Filosofia do cuidar tem como objetivo garantir qualidade de vida aos pacientes terminais
Foto: Reprodução
A notícia que chega pelo médico soa como uma sentença. A partir daí, desencadeia-se uma corrida incessante contra a morte, na espera de que, de uma hora pra outra, a medicina surpreenda com uma nova descoberta que represente cura ou que algum milagre aconteça. Por mais que o ditado popular reze que a única certeza da vida é a morte, é difícil confortar-se diante da terminalidade. Muitos pensam que não há mais nada a ser feito. A humanização da medicina tradicional, porém, mostra o contrário.

Há seis meses, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira - Imip, inaugurou a Casa de Cuidados Paliativos Professor Saulo Suassuna, no Recife. Única no Nordeste, a casinha branca, situada no primeiro andar do Hospital Pedro II, no bairro dos Coelhos, área central da cidade, acolhe pacientes terminais para tratá-los sob uma outra perspectiva: a que vê o doente em toda a sua completude, e não apenas da enfermidade.
Foto: Assessoria do Imip/ Divulgação
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Casinha branca, no primeiro andar do hospital Pedro II, acolhe pacientes terminais do setor de Oncologia do Imip
"Muitas vezes, nós (profissionais de saúde) enxergamos apenas a doença e ficamos única e exclusivamente focados em curar. Não percebemos, muitas vezes, que o paciente está sentindo dores pelo uso de determinada medicação ou mesmo que ele está aflito por deixar questões mal resolvidas na vida pessoal. Então claro que a busca pela cura é importante, mas o cuidado durante esse processo é muito mais", afirma Jurema Teles, coordenadora do setor de Oncologia Adulto do Imip.

A especialidade dos cuidados paliativos versa sobre uma abordagem que visa à melhoria da qualidade de vida do paciente terminal através da prevenção e alívio do sofrimento. "Nós nunca vamos saber o dia nem a hora que iremos morrer. Então é preciso cuidar para que os últimos momentos aqui na terra sejam vividos com qualidade", defende a geriatra Mirella Rebêlo, que coordena a Casa dos Cuidados Paliativos do Imip.

Nem todos os pacientes permanecem internos na casa. O grupo de médicos, assistentes sociais e enfermeiros, porém, acompanha toda a trajetória, mesmo após a alta. "Quando vemos que a família tem condições de manter os cuidados paliativos em casa, liberamos o paciente. Muitos vêm aqui só quando precisam de um medicamento pra dor ou uma conversa. Em todo caso, nós ficamos acompanhando tudo e monitorando daqui", conta Mirella.

Por enquanto, a casa dos cuidados paliativos recebe apenas pacientes do setor de Oncologia. Com oito leitos, a ideia é expandir para 14 assim que possível. "O ideal é que esse serviço seja ofertado desde o início do tratamento. Temos consciência de que outras áreas também deveriam ser contempladas e, por isso, estamos trabalhando para que o serviço possa crescer, mas o tratamento humanizado já faz parte do corpo de valores da instituição", diz Jurema.


CAIXA DOS DESEJOS - Um dos trabalhos mais interessantes desenvolvidos pela Casa dos Cuidados Paliativos é a Caixa dos Desejos. Em um pequeno receptáculo, os pacientes depositam seus pedidos, realizados na medida do possível com a ajuda da equipe multidisciplinar do hospital. A geriatra Mirella Rabêlo, responsável pela casa, conta que os anseios vão desde uma reconciliação até mesmo degustar a comida favorita.

"Percebemos que muitos não querem partir sem deixar seus assuntos resolvidos; então, esse é um dos mais frequentes pedidos. Outros, simples aos nossos olhos - como tomar uma Coca-Cola ou comer um prato de costelinha -, têm para eles um imenso significado", conta Mirella.
Foto: Vanessa Silva/ NE10 http://www2.uol.com.br/JC/_ne10/cotidiano/foto/p-imip470.jpg
Maior desejo do pescador Severino José é ir pra casa
Há mais de um mês na casinha, o grande desejo do pescador Severino José, de 49 anos, é ir para a própria casa. "Quero terminar meus dias no meu cantinho", diz ele. "Não é que aqui seja ruim, muito pelo contrário, melhor que aqui só no céu", logo tratou de frisar. Acostumado à rotina de trabalho árduo que levava no município de Ipojuca, no litoral sul, onde tirava o sustento da pesca do marisco, caranguejo e siri, Severino tem sentido dificuldade em ficar o dia inteiro em cima de uma cama. Vítima de um tumor pélvico, perdeu a perna direita e ficou com uma grande ferida na virilha. A falta de informação e as condições financeiras o levaram a ficar muito tempo sem procurar atendimento.

A equipe, porém, está encontrando dificuldade em tornar realidade o desejo de Severino. Isso porque no hospital, o pescador tem acompanhamento diário e, apesar da extensão da ferida ter aumentado, a dor e o forte odor característicos desse tipo de tumor estão controlados. "Precisamos ter certeza que em casa ele terá o mesmo cuidado que está tendo aqui antes de realizarmos o desejo dele. Estamos entrando em contato com hospitais da cidade, para que ele possa fazer os curativos lá e aí, sim, terá alta como tanto deseja", contou Mirella.

A caixa dos desejos leva o nome de Renato Ferreira, numa homenagem ao paciente que protagonizou, em outubro de 2010, uma história considerada pela equipe profissional como das mais emocionantes da instituição. Aos 25 anos, o rapaz realizou, durante o período de internamento para tratamento de câncer, o sonho de casar com a namorada Daniela de Assis. Renato faleceu na enfermaria de Oncologia do Imip 15 dias após a cerimônia.

Para toda a equipe, essa história ilustra o real significado dos cuidados paliativos. "Às vezes, o milagre é você poder viver melhor cada dia que tiver", conclui Mirella.

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